terça-feira, 14 de junho de 2011

Crônica de um querido amigo: Fábio Torrente "O saco e a formiga"



Texto escrito por Fábio Torrente 19/05/2005

Existem pessoas que passam por nossas vidas e levam um pouco da gente quando partem. Meu amigo, que partiu tão cedo e deixou tantas saudades. Comentei dele com meus alunos, que educador maravilhoso seria!

Saudade! E quanta saudade!

Essa crônica ganhou como melhor texto do gênero, na época da faculdade...
Espero que se divirtam, para aqueles que não tiveram a oportunidade de conhecê-lo fica como um presente, para aqueles que tiveram fica a lembrança.
Se estivesse aqui, certamente, seria um dos que me apoiariam nessa nossa jornada. 





"Amigo é quem te dá um pedacinho do chão, quando é de terra firme que você precisa, ou um pedacinho do céu, se é o sonho que te faz falta. Amigo é mais que ombro amigo, é mão estendida, mente aberta, coração pulsante, costas largas."

Na minha segunda crônica no blog crônicas com picles tentei fazer graça... a gente sempre tenta fazer graça na vida, né? Pena que nem sempre se consegue... sei que ando chatão, mas é uma frente fria que está atravessando minha alma... oh, como eu sofro!

 O SACO E A FORMIGA
Era formiga. Tinha a mais absoluta certeza que aquele animal, ou inseto, seja lá que porra fosse, estava nos domínios de sua bolsa escrotal. Uma formiga pinicando o saco era a pior sensação do mundo. E não podia fazer nada. 15h28m50s. Banco lotado. Quinto ou sexto na fila. Não sabia mais. Não conseguia se concentrar no mundo à sua volta. Só pensava na maldita formiga fazendo a festa entre seus pentelhos. E se, disfarçadamente, enfiasse a mão e com duas ou três coçadas expulsasse a intrusa de lá? Alívio total. Mas olhou para o lado. A fila de clientes preferenciais estava grande. Vovós com seus cabelos brancos e roxos ficariam horrorizadas. 15h29m10s. A fila não andava. Um pingo de suor dividiu sua cara ao meio, indo da testa até o queixo. A formiga estava disposta a cavoucar todas as rugas para fazer não se sabe o que. Como a desgraçada chegou ali? Será que não conhecia a fábula com a sua rival, a cigarra? Em um saco não encontraria ração para se alimentar no inverno. Que tortura! A fila andou, 15h29m45s, o relógio não. Desespero! Cada vez mais não conseguia se controlar. Poderia pedir para alguém guardar lugar e ir ao banheiro. Seria fantástico baixar as calças e decretar caça à formiga. Com o dedão e o indicador, assassinaria, sem dó nem piedade, a cachorra! Ou melhor, a formiga! Seria ovacionado por todas as cigarras que se sentiriam vingadas com aquele ato. Foi quando sentiu outra picada. 15h29min50s. Suor frio. 29min51seg. Velhinhos debatendo sobre reumatismo e Poços de Caldas. 29min52seg. Coceira incontrolável. 53seg. Mais suor. 54seg. Fila empatada. 55seg. Criança chorando. 56seg. Mais velhinhos chegando. 57seg. Enxurrada de suor. 15h29min58s. Coceira absurda e desesperadamente incontrolável. 59seg. Suor. Coceira. Suor. Coceira. Suor. Coceira. Morra desgraçada! Eram exatos 15h30min. Silêncio geral! Velhos, crianças, deficientes e funcionários olhavam aquele homem alucinado arrancar as calças e coçar com ferocidade suas partes íntimas. 15h30m04s. Quatro segundos apenas para que ele caísse em si. Estava no centro de uma cena teatral, ou de um ataque epiléptico, ou, então, de um strip-tease, no mínimo, estranho para padrões convencionais. Não importa. Tinha se livrado da praga que o atormentava. Estava livre. Vestiu as calças e saiu porta afora, como se nada tivesse acontecido. 15h30m48s. Sentou no bar mais próximo totalmente descrente. 15h33m15s. Pediu uma cerveja. Estava envergonhado. Parecia que todos à sua volta riam do show-mico-pseudopornô de minutos antes. Mas qual não foi sua surpresa ao deparar com outra formiga rondando seu copo. Olhou-a por alguns instantes. Ela, a formiga, alheia a qualquer situação neste conturbado mundo, continuava seu passeio pela aba do copo. Coitada, pagou o pato! 15h35m35s. Foi ferozmente ingerida com cerveja e tudo rumo ao estômago do sujeito. Ele, feliz da vida, correu para o banco antes das 16hs. A conta precisava ser paga ainda hoje.


 Escrito por Torrente às 14h34    Fonte/. http://ogatoqueri.zip.net/

6 comentários:

  1. Consigo imaginar ele falando: " - Oh, como eu sofro", É a cara dele!!!!!!!!!Saudades eternas!

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  2. Muito Legal Essa Cronica Ri Muito Lendo-a
    Te Amo Professora

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  3. Que bom que vc gostou. é realmente muito engraçada. bj

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  4. Tatiana S. Sanches

    Lu eu adorei esta cronica muito engraçada, eu ri muito lendo-a, bjus

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  5. Muito engraçada! Como era inteligente! abraços

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